Num contexto marcado por crises climáticas, transições digitais e desafios multiníveis de governação, partilhamos o mais recente contributo do Professor António Covas, nosso associado, que propõe uma reflexão crítica sobre a governabilidade das políticas públicas e o papel do Estado-administração no século XXI. O autor questiona a persistência de modelos hierárquicos e departamentais face à necessidade de plataformas colaborativas, governação dos bens comuns e redes territoriais de conhecimento, sublinhando que a digitalização não pode substituir valores, direitos e compromisso democrático. Uma leitura particularmente relevante para quem trabalha no desenvolvimento local e na articulação entre setores público, privado e comunitário, num momento em que Portugal enfrenta desafios estruturais que exigem cooperação, visão prospetiva e inteligência territorial

Artigo de opinião – Público
12 de Fevereiro de 2026, 22:00

O Estado-administração e a governabilidade das políticas públicas

Como os últimos eventos climatéricos demonstram à evidência, a proteção civil é, seguramente, um dos campos mais complexos e arriscados da política pública onde quase tudo é posto em causa pela interdependência e intensidade das ocorrências. Este facto, pela sua complexidade, é um bom pretexto para uma reflexão breve sobre a governabilidade atual das políticas públicas e o desempenho do Estado-administração em plena transição tecno-digital. Por governabilidade entendemos, em geral, as condições de formulação e realização das políticas públicas no contexto atual.

Estamos em 2026, perante um Estado-administração que é mais programático que pragmático e que julga que é suficiente um alerta eletrónico, uma comunicação mediática, uma visita a propósito, uma publicação estatística recente ou o anúncio do grau de prontidão e meios mobilizáveis para acorrer aos danos eventuais. Tudo isso é necessário, mas não é suficiente. Há uma falha mais profunda, uma falência grave de governabilidade e interoperabilidade do sistema de administração de políticas públicas. Senão, vejamos.

Em primeiro lugar, o modelo silo hierárquico, vertical e departamental do Estado-administração do século XX, não obstante a sua modernização tecno-digital, não está culturalmente preparado para implementar o modelo colaborativo do século XXI que será operado em modo de cocriação, coprodução e cogestão com outros setores e atores.

Em segundo lugar, o Estado-administração tem de perceber que a sua relegitimação no século XXI depende de uma agenda comum e um contrato de parceria alargado entre os setores privado, público e comunitário, isto é, de um governo dos comuns e de uma cooperação interinstitucional.

Em terceiro lugar, o Estado-administração do século XXI é uma plataforma em construção de compromisso e confiança mútua e colaborativa entre uma imensa constelação de atores com diferentes tipos de vinculação, do campo da ciência às profissões, dos valores aos interesses, das instituições à cultura.

Em quarto lugar, o Estado-administração é um ator sintagmático em modo de governação multiníveis, responsável por montar redes e plataformas de conhecimento que contribuam para transformar um espaço geográfico num território-desejado, por exemplo, uma comunidade intermunicipal (CIM).

Em quinto lugar, o Estado-administração do século XXI não troca os termos da equação e não confunde os fins com os meios, ou seja, a digitalização, a automação e a artificialização de meios e instrumentos não se substituem aos valores, princípios e direitos dos cidadãos.

Em sexto lugar, o Estado-administração opera as políticas públicas como o instrumento primordial da provisão dos bens comuns em formatos muito diversos que vão desde os consórcios empresariais às comunidades de risco, às áreas de paisagem protegida, às redes e comunidades intermunicipais, ao restauro da natureza e às infraestruturas verdes e ecológicas, às euro-cidades e euro-regiões, entre outros formatos de programação, planeamento e ação coletiva concreta.

Em sétimo lugar, o Estado-administração é um operador sistémico multirrisco que, através do planeamento prospetivo de cenários e de planos de prevenção e contingência, tudo faz para antecipar tendências, efeitos externos, danos colaterais, eventos imprevistos e cisnes negros que sobrevoam a aldeia global em que vivemos.

Em oitavo lugar, o Estado-administração é o operador multiescalar de uma internet dos territórios através da elaboração e mapeamento de vários sistemas de informação geográfica (SIG), em linha com as prioridades definidas pela Agenda Territorial e a estratégia nacional dos territórios inteligentes.

Em nono lugar, o Estado-administração é o operador privilegiado de infraestruturas críticas de uso múltiplo, isto é, de uma nova geração de investimentos em parceria público-privada, através das quais nos é proporcionado segurança coletiva, crescimento potencial e bem-estar social.

Em décimo lugar, o Estado-administração, através de um governo dos comuns, é um agente privilegiado de cultura e curadoria territorial através, por exemplo, da instituição de núcleos criativos nos departamentos de prospetiva, programação e planeamento que podem tirar partido das novas tecnologias e modelos de linguagem de IA e, assim, aumentar a qualidade e diversidade das ideias criativas e inspirar novas medidas de política pública.

A terminar, pensemos por um momento. Portugal é um pequeno país aberto ao mundo e integrado num grande espaço globalizado como é a União Europeia. Há, portanto, mais país fora do que dentro. Neste contexto, a escala das operações comerciais,

os riscos globais, a governança multiníveis, a segurança económica, as inovações tecnológicas, a defesa e a política de relações exteriores, ultrapassam em muito os limites das nossas políticas públicas de soberania do Estado-administração. Neste contexto, a prospetiva e o planeamento dizem-nos, por exemplo, que o mar português alargado marcará a próxima fase do Estado-administração e a governabilidade das suas políticas públicas. Estamos a falar de uma imensa massa oceânica, de um novo direito do mar, de recursos e materiais raros, de grandes inovações tecnológicas, de energias renováveis em alto mar, enfim, de uma extensa economia azul e de um bem comum incomensurável. Para um país como Portugal, com uma grande história marítima, este não pode ser um debate marginal sobre as políticas públicas do próximo futuro.

António CovasProfessor Catedrático da Universidade do Algarve

Fonte: https://www.publico.pt/2026/02/12/opiniao/opiniao/estadoadministracao-governabilidade-politicas-publicas-2164536

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