Num contexto de reconfiguração das cadeias logísticas e de valor globais, de relocalização industrial e de preparação de novas áreas empresariais em Portugal, partilhamos a reflexão do Professor António Covas, nosso associado, sobre a importância das regiões inteligentes e das plataformas analíticas de inteligência territorial para o desenvolvimento regional.

Partindo da oportunidade de reindustrialização europeia associada aos processos de nearshoring e friendshoring, o autor defende a necessidade de articular as estratégias de desenvolvimento regional com soluções tecnológicas que permitam conhecer melhor os territórios. Para tal, apresenta-nos o exemplo da ferramenta de inteligência territorial desenvolvida pela CIM do Oeste, em parceria com a NOVA IMS, e da GeoPublic, desenvolvida pela inAtlas. Através da disponibilização de dados e indicadores atualizados, estas ferramentas podem favorecer a tomada de decisão e ajudar os territórios a posicionar-se melhor na captação de investimento, uma vez que lhes permite identificar as suas vantagens competitivas.

Contudo, esta abordagem deverá igualmente contribuir para uma gestão mais eficaz dos recursos disponíveis e para a correção das assimetrias territoriais entre o litoral e o interior do país. Para tal, é necessário que as estratégias de desenvolvimento regional sejam claras, fomentando uma maior articulação entre entidades públicas e privadas e reforçando a cooperação empresarial sob a forma de clusters e consórcios. Assim, a inteligência territorial, não substituindo a orientação política e a deliberação que legitima o processo de tomada de decisão, surge como um instrumento que pode contribuir para uma governação pública mais eficaz, preparando os territórios para novas oportunidades industriais e promovendo um desenvolvimento regional mais sustentável e equilibrado. Por último, o autor deixa uma série de questões fundamentais, constituindo um ponto de partida para a problemática que deverá orientar a concretização desta visão: a criação de regiões inteligentes e das respetivas plataformas analíticas territoriais.

 

Artigo de opinião – Jornal de Notícias

12 de outubro de 2026

Regiões inteligentes e nova geografia industrial. As plataformas analíticas de inteligência territorial

Volto ao tema das regiões inteligentes, agora que o Governo se prepara para criar seis (ou sete) grandes áreas empresariais – duas na região norte, duas na região centro, uma no Vale do Tejo, uma no interior do Alentejo (Sines no litoral) e talvez uma no Algarve – visando acolher investimentos e capital multinacional de grande escala, em colaboração com as CIM e as CCDR. Já temos, como sabemos, uma estratégia nacional de territórios inteligentes (ENTI), aprovada pela RCM nº176/2023 de 18 de dezembro e alterada pela RCM nº119/2024 de 2 de setembro. É, por isso, muito importante, na atual conjuntura, contextualizar e perceber melhor as dinâmicas da nova geografia industrial e refletir sobre o conceito de região inteligente e, nesse âmbito, a função do instrumento plataforma analítica de inteligência territorial.

Em primeiro lugar, no período pós-pandemia, executámos o Programa de Recuperação e Resiliência (PRR) e a seguir vamos executar o Programa Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR), com uma dotação de 22,6 MM euros no período 2026-2034, que visa responder aos danos causados pelas tempestades de 2026 e prevenir danos futuros sobre infraestruturas críticas da sociedade e da economia. Ao PTRR é preciso adicionar o PT 2034, o novo quadro de programação plurianual de fundos europeus. Recordo, mais uma vez, que não basta considerar compromissos e execuções de despesa, mas, sobretudo, os resultados efetivos dos programas e a correção estrutural das assimetrias profundas da sociedade portuguesa entre litoral e interior. Espero que a palavra Transformação do PTRR seja o sinal de alarme para obter esse efeito.

Em segundo lugar, fala-se na União Europeia em política industrial europeia e mercado único de capitais e poupanças e numa estratégia de reindustrialização associada ao atual regime transacional entre geopolítica e geoeconomia mundial. Trata-se de regionalizar a globalização, de reconfigurar as cadeias logísticas globais, de preparar a relocalização industrial, através de acordos com países vizinhos (nearshoring) e países aliados (friendshoring). Ou seja, no quadro da União Europeia e no âmbito dos seus múltiplos acordos extracomunitários é possível desenhar uma nova geografia industrial que as plataformas analíticas e os sistemas inteligentes podem facilitar.

Em terceiro lugar, não há uma região inteligente sem uma definição clara de uma estratégia de desenvolvimento regional delimitada no espaço e no tempo, ou seja, sem orientações políticas pertinentes para a ação coletiva territorial em matéria de serviços públicos essenciais, infraestruturas críticas do território, arranjos produtivos empresariais da território e suas relações exteriores, a escolha dos vetores (ou verticais) analíticos não sai beneficiada e pode prejudicar a seleção dos indicadores que são decisivos para a produção de dados, ou seja, é todo o processo analítico que fica viciado à partida.

Em quarto lugar, o conceito de região inteligente visa tirar partido das várias infraestruturas de dados espaciais com origem nos municípios, na internet das coisas, na inteligência artificial e nos atores externos que interagem com a CIM-região e, a partir daí, utilizar a ciência dos dados e as tecnologias digitais para promover um novo modelo regional de governação. Um aspeto fundamental da região inteligente, nesta conjuntura, diz respeito à conexão estrutural entre o processo de descentralização de atribuições e competências para as CCDR e as CIM e o próprio processo de implementação da plataforma intermunicipal de inteligência analítica territorial. A conexão tem a ver com a massa de atribuições e competências que podem ser transferidas, delegadas e contratualizadas com a CIM pelas CCDR e os Municípios. Se tal acontecer, a plataforma analítica da região inteligente sai claramente beneficiada porque o processo de autoprodução de dados é muito mais substancial e, logo, mais eficaz e eficiente todo o processo e procedimento do novo modelo regional de governação.

Em quinto lugar, para que a região inteligente possa desenhar uma nova geografia industrial para o seu território os dados de inventário são uma condição necessária, mas não suficiente. Para lá de informação atualizada sobre os seus parques industriais e a capacidade de avaliar vantagens comparativas em relação a outros locais que competem pelo mesmo investimento, existe ainda uma inteligência territorial de nível superior que oferece informação privilegiada sobre tipologia de terrenos, sua disponibilidade, estado das infraestruturas, perfil das empresas instaladas, níveis de atividade por setor, ligações logísticas, proximidade a nós de transporte e serviços auxiliares. Por exemplo, em contexto de nearshoring mais competitivo, os investidores avaliam o ecossistema, isto é, que empresas do setor já operam na área, que fornecedores locais podem ser integrados na cadeia de valor, qual é a densidade de talento existente, como evolui a atividade da área industrial e que risco de saturação existe a curto prazo. Estas referências são feitas pela empresa inAtlas que, em parceria com a empresa Informa D&B, com atividade em Espanha e Portugal, produziu uma solução de inteligência de localização (denominada GeoPublic) com informação comercial e dados setoriais atualizados diariamente para benefício de promotores, investidores e decisores.

Em sexto lugar, os autarcas dos 12 municípios da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Oeste criaram em 2023 uma ferramenta tecnológica de apoio à gestão dos seus territórios, uma parceria entre a CIM Oeste e o Laboratório de Analítica Urbana da Universidade Nova de Lisboa, a NOVA IMS. A plataforma faz um retrato do território do Oeste, assente em dados, com atualização automática e em tempo real, de vetores identificados como prioritários para os autarcas. Nesta fase, o retrato da CIM é baseado em oito vetores – Mobilidade, Bilhética, Transações, Empresas, Resíduos, Turismo, Praias, Alterações Climáticas – mas, desde que os dados existam e estejam acessíveis, outros temas podem ser abordados e integrados. Nesta fase a ferramenta é composta por 13 portais, um para a CIM e um para cada município nos quais a informação é visualizada através de painéis de bordo. Através das suas hiperligações e interoperabilidade pretende-se que o trabalho dos técnicos municipais, em termos de planeamento e gestão, seja facilitado. Além da informação do seu território, cada município tem também acesso à informação da região e pode escolher o que é disponibilizado ao público. Todavia, como o acesso à informação relativa aos vários vetores é muito variável, é, por vezes, necessário recorrer a entidades externas, desde associações empresariais a centros de investigação, serviços públicos e outras entidades externas. Esta dependência de entidades externas mostra-nos, por um lado, a importância de estabelecer protocolos de colaboração com essas entidades para facilitar o acesso à informação, por outro, revela-nos que podem existir muitas discrepâncias técnicas e tecnológicas entre essas várias entidades (a sua maturidade tecnológica e digital), o que pode pôr em causa uma parte significativa de todo o processo de implementação da plataforma.

Em sétimo lugar, e pelo que fica dito, a plataforma analítica territorial é uma ferramenta que depende diretamente da ambição do projeto político do município e da comunidade intermunicipal que, por sua vez, dependem do stock de atribuições, competências e recursos, humanos e financeiros e, por último, da qualidade e eficácia da governação multiníveis. A plataforma analítica territorial, sendo um instrumento de inteligência coletiva e uma máquina que pode aprender por si mesma, não substitui, contudo, o processo deliberativo e colaborativo que só a política pode cumprir com realismo. Seja como for, estamos perante um novo paradigma de tomada de decisão em matéria de políticas públicas de base territorial que acompanha todo o ciclo de realização da política regional nos seus três momentos mais importantes, a descrição, a predição e a prescrição. E a tarefa nunca está terminada, pois os desenvolvimentos tecnológicos estimulam a criatividade e esta produz nova informação relevante para a tomada de decisão. E o exercício recomeça com novas necessidades, mais indicadores e uma nova métrica.

Em oitavo lugar, a região inteligente e a nova geografia industrial são fortemente tributárias dos princípios e boas práticas de sustentabilidade, economia circular e ecodesign. Com efeito, para as novas cadeias de valor da região inteligente não conta apenas o impacto tecnológico, a criatividade e a cultura sustentam as ligações entre funcionalidade, impacto ambiental e estética da paisagem. Para uma região inteligente o lixo é um luxo, uma matéria-prima essencial para a economia circular e o ecodesign e um elemento fundamental da marca do território. Em definitivo, a sustentabilidade como imagem de marca de uma região inteligente valoriza as suas cadeias de valor e o território como um destino turístico.

Por último, a inteligência de localização tornou-se um ativo estratégico de primeira grandeza para as empresas que participam neste processo global de relocalização industrial. A oportunidade, no entanto, não é nem automática nem equitativa. As regiões que irão captar maior valor do nearshoring e friendshoring serão aquelas que integram políticas industriais, regionais e de infraestruturas de longo prazo, e não apenas incentivos de investimento pontuais. A diferença estará em quem for capaz de demonstrar com dados fiáveis que o seu território está, de facto, mais preparado para acolher o projeto avaliado, donde a necessidade de uma calibração criteriosa das políticas públicas do território.

 

Notas Finais

As tensões geopolíticas que se acumulam desde 2022 – a guerra na Ucrânia, as perturbações no Mar Vermelho e Estreito de Ormuz, os conflitos tarifários entre blocos e as sanções secundárias – revelaram bem o risco de dependência excessiva de territórios distantes para abastecimentos críticos. Como dissemos, uma das respostas político-empresariais é a regionalização e relocalização da produção, ou seja, o nearshoring para a Europa e o friendshoring para aliados geopolíticos em especial nas fases de produção consideradas estratégicas. Esta reconfiguração das cadeias de valor globais será, assim, uma grande oportunidade industrial para a Europa e a porta aberta para uma nova geografia industrial na Península Ibérica.

Dito isto, não podemos, porém, confundir dispositivos tecnológicos e plataformas analíticas com regiões inteligentes. Dados e ciência dos dados, sistemas de informação geográfica (SIG), internet dos objetos (IOT), dispositivos e plataformas analíticas, sistemas inteligentes de IA e agentes autónomos, são elementos fundamentais para uma região inteligente funcionar, todavia, são igualmente determinantes elementos geoestratégicos e operacionais que mudam a natureza, a escala e o alcance das operações na linha do tempo. Refiro-me a fatores críticos como a cooperação interempresarial em matéria de sucessão geracional, a formação de clusters e consórcios empresariais, a promoção de fusões e concentrações empresariais, a intensidade-rede e a interoperabilidade entre empresas, zonas industriais e parques empresariais.

E para ilustrar o que acabo de dizer, deixo algumas questões em aberto que são, em minha opinião, fundamentais para sustentar a criação de uma região inteligente e a sua plataforma analítica territorial:

– Qual é o estado da arte dos 17 clusters de competitividade considerados pela AICEP?

– Qual é o estado da arte dos 21 clusters de competitividade considerados pelo IAPMEI?

– Qual é o estado da arte dos 25 parques de ciência e tecnologia (TECPARQUES)?

– Qual é o estado arte dos 53 consórcios empresariais do PRR?

– Qual é o estado da arte, a intensidade-rede e a interoperabilidade das zonas industriais e dos parques empresariais existentes em cada CIM?

– Em que medida toda esta informação é quantitativamente e qualitativamente relevante para integrar e sustentar as futuras plataformas analíticas de inteligência territorial?

– Em que medida todos estes contributos podem ser utilizados para corrigir, de forma inteligente e criativa, as assimetrias regionais entre o litoral e o interior do país?

Finalmente, permitam-me um aviso à navegação. A plataforma analítica territorial, se bem concebida e administrada pode poupar muitos recursos a um ecossistema territorial e orgânico – CCDR, CIM, CM – com tendência, quase sempre, para alguma obesidade político-burocrática. A regionalização, a metropolização e a intermunicipalização inteligentes agradecem.

António Covas – Professor Catedrático da Universidade do Algarve

Fonte: https://www.jn.pt/amp/18136168/regioes-inteligentes-e-nova-geografia-industrial-as-plataformas-analiticas-de-inteligencia-territorial

 

 

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