MANIFesta
MANIFesta - O que é
MANIFesta - Assembleia, Feira e Festa do Desenvolvimento Local
Cada MANIFesta é uma realização marcante que transcende em muito o universo da rede ANIMAR. Assentam em três pilares:
1 - Assembleia – A MANIFesta é um espaço de reflexão e intervenção cívica, onde, com a maior liberdade e abertura, se realizam os mais variados debates, oficinas, tertúlias, etc., podendo estes ser propostos e animados por qualquer participante.
Elemento central dessas reflexões são as Assembleias MANIFesta, que culminam um processo alargado de debates com início nas Assembleias Regionais. As sínteses das Assembleias MANIFesta são recolhidas sob a forma de teses e declarações identificados pelo nome da localidade onde se realiza cada MANIFesta.
2 - Feira – Cada MANIFesta é igualmente um momento privilegiado onde se dão a conhecer projectos e iniciativas do associativismo de Desenvolvimento Local e se faz a divulgação dos seus produtos, ideias e práticas. Mas também, de uma forma que se quer o mais abrangente e descomplexada possível, dos outros associativismos cívicos e solidários de que se compõe a sociedade civil organizada.
3 – Festa – Cada MANIFesta é ainda um espaço de intervenção, divulgação e fruição cultural, de lazer e animações várias. Nela cabem todas as expressões artísticas e culturais, das tradicionais às vanguardistas, sejam elas informadas pelos saberes e imaginários populares ou eruditos, de expressão urbana ou rural, sem fronteiras nacionais, culturais ou de idade.
PEQUENA DIACRONIA DO EVENTO MANIFesta
1994 – MANIFEsta de Santarém
A ideia das MANIFesta surgiu em Novembro de 1993, numa reunião em Santarém, Os Estados Gerais do Desenvolvimento Local (Nome inicialmente pensado para designar a própria MANIFesta, mas abandonado devido à apropriação da expressão “Estados Gerais” por outra entidade, entretanto, com grande impacto na comunicação social) convocada por Alberto Melo, Acácio Catarino, José Manuel Henriques e José Portela. Compareceram cerca de trinta pessoas, com muitas e diversificadas posturas, opiniões e visões sobre as prioridades do Desenvolvimento Local, mas sentindo a necessidade de realizar algo que ampliasse a reflexão e a visibilidade das Organizações e Iniciativas de Desenvolvimento Local.
Realizada em recinto fechado entre os dias 5 e 8 de Outubro, por um Conselho Promotor da MANIFesta, com meios escassos e sem experiência, ela constituiu um enorme êxito, que surpreendeu os mais optimistas. Tendo como ponto de partida a incipiente reflexão comum iniciada dois anos antes com o Encontro do Mezio, por um número reduzido de pessoas e associações, a realização e o êxito da MANIFesta de Santarém poderá ter sido o ponto de partida para o nascimento do Movimento de Desenvolvimento Local em Portugal. Pessoas e associações sem hábitos de trabalho e reflexão comum consolidados descobriam que não estavam sozinhos e provavam as potencialidades do trabalho em rede.
O êxito aconselhou a continuidade da iniciativa e o desenvolvimento/enriquecimento da ideia MANIFesta.
Do documento produzido pela primeira MANIFesta, as Conversas Inacabadas, conjunto de constatações e recomendações, destacamos: “o desenvolvimento local não é uma nova ideologia, é uma afirmação de diversidade, é o esforço para impedir que a sociedade se feche a partir das lógicas economicistas… Não pode ser entendido e praticado como alternativa para a auto-desresponsabilização do Estado… A avaliação (do Desenvolvimento Local) não deve ser entendido como uma mera enumeração das actividades realizadas nem referenciar-se exclusivamente a objectivos definidos no início do projecto ou acção… Deve ser entendida de forma dinâmica, constituindo-se como um mecanismo de reflexão permanente sobre o que está a acontecer e as mudanças produzidas.”
A MANIFesta de Santarém contou com 71 stands e 313 inscrições individuais; debateu para onde vai o Desenvolvimento Local em Portugal, como se organizam dos cidadãos para o Desenvolvimento Local, as suas políticas e instrumentos, o Estado e os actores locais, minorias, a escola, formação e emprego, etc. A animação cultural contou com a participação de grupos de teatro, música popular, ginástica, dança, passagem de modelos, ranchos folclóricos, rap, José Mário Branco, Amélia Muge, Trigo Limpo/ACERT, etc.
1996 – MANIFesta de Tondela
Em finais de 1995 a ACERT propõe-se realizar a sua segunda edição. Atribui-se à rede ANIMAR a responsabilidade pela realização das MANIFesta, sempre em parceria com entidade(s) local(ais), e cria-se um Conselho MANIfesta para a apoiar nessa tarefa. Começa a desenhar-se o modelo, que desde então se tem vindo a aperfeiçoar, relativamente às responsabilidades pela concretização da iniciativa. A dinâmica imposta pela ACERT fez com que a rede ANIMAR, como um todo, se empenhasse no desafio da segunda MANIFesta. As ADL's multiplicavam-se e amadureciam. Era preciso mostrar ao poder que Santarém não fora um “milagre”.
A MANIFesta de Tondela foi marcante, não só pela adesão de um número maior de associações e pela qualidade da sua programação cultural e dos debates, mas também por se ter ganho a posta da afirmação institucional. Nela participaram variadas de instituições do Estado, o Presidente da República, Jorge Sampaio, percorreu-a e discursou.
A Declaração de Tondela, constatando que, em sobreposição ao prometido crescimento e progresso, aquilo que se verificava no país era o acentuado agravamento da “pobreza, da desigualdade e da exclusão social, a delapidação ou abandono dos recursos naturais, a massificação cultural… a permanência ou ameaça de autoritarismos administrativos e políticos”, pronuncia-se pelo direito dos cidadãos a “resistir e a construírem alternativas” lançando “as sementes de uma sociedade à escala humana, que coloque a vida… como princípio e fim de todas as instituições sociais, e em especial da economia”.
A Assembleia MANIFesta contou com a participação de mais de 200 participantes e 100 intervenções. Em Em 9 horas de sessões debateu 25 teses, tendo o então Ministro da Solidariedade e Segurança Social, Ferro Rodrigues assistido à parte final dos trabalhos. Foram tratados temas como “Condições para o exercício das ADL's e o Quadro legal e político-institucional para o DL; realizaram-se concertos de música de Moçambique, Guiné-Bissau e Brasil; as ruas animaram-se com os Zés-Pereiras de Quimada, a Banda de Loriga, a Companhia Maribondo e os Bombos de Lavacolhos.
Durante o evento, que registou um aumento de adesões (stand e individuais) foram editadas várias publicações (Diário da MANIFesta, Notícias Frescas, Glocais, etc.), incluindo ainda as fotografias da exposição Fotografia&Desenvolvimento, o CD MANIFestaSONS… Foi vasta, variada e de grande qualidade a programação cultural e de animação. Criou-se o Espaço Criança e a Feira do Livro, realizou-se o II FINTA (festival de teatro), uma mostra de informática, um espaço de projectos educativos, o bazar de trocas e saberes, uma mostra de vídeo, etc.
1998 – MANIFesta de Amarante
A responsabilidade local pela realização da terceira MANIFesta coube à ADESCO, tendo-se decidido, durante o processo de candidaturas, que esta seria bianual. Devido ao Referendo sobre a Regionalização, realizou-se em Novembro. Introduz-se a prática da realização das Assembleias Regionais preparatórias da Assembleia MANIFesta. Pela primeira vez participam organizações dos PALOP's. O ICE organiza o I Encontro Internacional sobre Desenvolvimento Local com a participação de delegações estrangeiras e teóricos do DL.
A MANIFesta é visitada pelos membros do governo, tendo o Presidente da República sido representado por Maria José Rita.
Sob o lema Desenvolvimento Local: uma oportunidade de futuro! a Declaração de Amarante afirma a consolidação do Movimento de Desenvolvimento Local e estabelece as grandes linhas para o seu crescimento e reforço, e para o aprofundamento da democracia e da cidadania. Reivindica-se então: a criação de um Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Local; o apoio público às iniciativas privadas de pequena dimensão (abatimentos fiscais, incentivos ao mecenato, etc.); formulação de um quadro flexível e aberto de programas nacionais; promoção de Programas Integrados de Desenvolvimento de Base Territorial; reconhecimento do estatuto de Parceiro Social; valorização dos produtos e serviços imateriais do DL.
A Assembleia MANIFesta realizou cinco colóquios /debates temáticos, da responsabilidade de outros membros e parceiros da ANIMAR (Comércio Justo e Solidário – CIDAC e Terras Dentro; Mulheres e Desenvolvimento Local – UMAR; Cooperativismo e Desenvolvimento Local – INSCOOP; Educação e Desenvolvimento Local, organizado como Encontro Europeu de Desenvolvimento Educativo Local – ADELE, ADEF, ICE; Ciência, Investigação e Desenvolvimento Local – CEG / Universidade de Lisboa em articulação com a Mostra de Centros de Estudo e de Investigação), uma prova de BTT, um Concurso Escolar nas escolas do ensino secundário e preparatório de Amarante, o concurso de fotografia Amarante – História, Cultura e Tradição, uma Caravana TT/LEADER II. A animação cultural constou de circo, música tradicional, teatro, jogos, moda, poesia, fanfarras, etc. Por lá passaram os Bombos de Amarante, Guto Pires, Moçoilas e African Voices, Brigada Vitor Jara, Gaiteiros de Lisboa, Julinho da Concertina, músicos de Múrcia, Euskadi, Brasil, Argélia e Guiné-Bissau. Realizou-se o Espaço de Produtos Locais (artesanato, gastronomia e Feira do Vinho Verde), de Troca de Saberes, Mostra de Iniciativas e a Praça da Cultura.
2001 – MANIFesta de Tavira
A quarta MANIFesta realiza-se em Abril, sob responsabilidade local da Associação In Loco, que aposta na inovação. Avaliada a experiência anterior, toma-se a decisão de este evento se passar a realizarem na Primavera e de fazer da edição de Tavira uma demonstração da força, vitalidade, diversidade e capacidade do Movimento de Desenvolvimento Local. Pela primeira vez a MANIFesta é ao ar livre (uma decisão que se verifica acertada e que permaneceu) e realizam-se acções de formação para quadros das ADL's com o objectivo se constituir uma rede de Dinamizadores Regionais da MANIFesta. Consolida-se, assim, a ideia de fazer da MANIFesta um processo e não um mero produto.
A MANIFesta é visitada, entre outros, pelos Presidente Jorge Sampaio e Ministro do Trabalho e da Solidariedade.
A Assembleia MANIFesta debruça-se sobre o caminho feito e a busca de compromissos com o poder político. Na Declaração de Tavira, intitulada O Desafio de um Portugal Futuro, faz-se eco das inquietações do Movimento, porque o “poder político continua a privilegiar políticas de carácter macroeconómico e de endeusamento do mercado, em prejuízo de intervenções de base local… assentes na pequena escala, na troca solidária e na diversidade”. E volta a reafirmar a necessidade de definir as bases de uma Carta de Relacionamento com Estado , uma Declaração de Direitos e Deveres das OIDL; o estabelecimento de parcerias com o Poder Local que respeitem a autonomia das iniciativas; o reconhecimento da ANIMAR e outras estruturas e redes de mediação.
Durante a MANIFesta debateram-se, entre outros temas, O Cooperativismo como Factor de Desenvolvimento Local, Iniciativa EQUAL, Agricultura Biológica e Desenvolvimento Sustentável, Colectividades de Cultura, Recreio e desporto – Um balanço para o desenvolvimento, A Educação e a Formação de Adultos nas Dinâmicas do DL, A Globalização na Mira do DL: Globalizar Solidariedades e Resistências, Microcrédito: um instrumento de luta contra o desemprego e a pobreza, A imigração e o Desenvolvimento, Artes e Ofícios Tradicionais no Novo Milénio, etc. Editou-se o Jornal MANIFesta. Aos espaços que vinham das edições anteriores juntou-se o Espaço Jovem, o Fora d´Horas e a animação Infantil. Ouviu-se música da Andaluzia, Cabo Verde, África sub-Saariana e Marrocos. Homenageou-se José Afonso. Largaram-se papagaios, fez-se canoagem, demonstração de veículos eléctricos a duas rodas, ateliês de compostagem, etc.
2003 – MANIFesta de Serpa
A quinta edição realizou-se na vila de Serpa, em Maio – sob a responsabilidade de um consórcio constituído pela ESDIME, Rota do Guadiana, Terras Dentro, Alentejo XXI e ANIMAR –, e representou novo salto em frente. Após consulta aos associados da ANIMAR é elaborado um Caderno de Encargos onde ficam definidos e regulados os critérios a que devem obedecer tanto as MANIFesta como as candidaturas à sua realização. É adoptado um novo tipo de parceria, mais alargado – a Entidade Promotora Local – constituído por várias ADL's, conjugando-se estilos, práticas, forças e capacidades diversas.
A realização da MANIFesta em Serpa, na margem esquerda do Guadiana, no interior e uma das áreas mais deprimidas, foi outra aposta ganha, mobilizando as populações e os artistas da zona numa indesmentível afirmação regional do movimento.
Sob o lema Com o Desenvolvimento Local – superara a crise e construir o futuro , a Assembleia MANIFesta afirma que “há uma saída para as questões que a actual crise nacional e a crispação das relações internacionais colocam à sociedade portuguesa” e que é “possível evitar os custos sociais e económicos resultantes do aprofundar das assimetrias regionais, do crescimento da desigualdade, da cristalização dos sentimentos de injustiça e da exclusão de grupos cada vez mais significativos”.
Reivindica-se a imperiosas definição de uma Carta de Princípios de Relacionamento do Estado com as OIDL e a participação do Movimento no processo de preparação do IV QCA; aponta a necessidade de assegurar a defesa das áreas desfavorecidas, face às limitações de acesso a fundos a partir de 2006; de dar atenção à problemática dos jovens; do reconhecimento das OIDL como Parceiro Social; dar atenção à formação continuada dos seus técnicos por parte da OIDL; o reconhecimento da utilidade pública dos serviços prestados pelas OIDL; dar visibilidade pública ao Movimento de Desenvolvimento Local.
Serpa registou um alargamento das participações, stands e programa: espaços Artesanato e Jovem, Brincando, Cantigas de Amor, Escárnio e Mal Dizer (oficina de troca de experiências do DL); exposições (11 – escultura, pintura, fotografia, instalação); ateliês de dança, construção de instrumentos, pinturas corporais, máscaras, oficinas de tranças e brincos, cerâmica, tecelagem, construção em taipa; corridas de patins; gastronomia alentejana, islâmica e dos PALOP's; Feira do Livro; Jogos tradicionais, etc. Debateu-se o Comércio Justo, a Cidadania que Sonhamos, os Novos Desafios da Intervenção Juvenil; fez-se o pré-lançamento do Guia das OIDL e apresentou-se o livro Rede de Jovens em Meio Rural; apresentou-se também o programa DelNet; desfilaram grupos corais de Serpa, ranchos folclóricos, teatro de rua, ouviu-se jazz, Jorge Palma, Uxu Kalhus e Djamboonda, viram-se caretos e marionetas, etc.
Sexta, 19 de Agosto de 2011
