“Desigualdades persistentes: o que os dados ainda nos dizem em 2026”.
Em 2026, a promoção da igualdade de género enfrenta um contexto adverso: agendas antigénero ganham visibilidade política e cultural, e prioridades governativas e administrativas deslocam causas históricas de justiça social – da violência contra as mulheres às políticas de igualdade – para a periferia da ação pública. Nesta cúspide, a evidência empírica exige atenção.
Portugal alcançou 63,4 pontos no Índice de Igualdade de Género da UE, ocupando o 10.º lugar entre os Estados-Membros, um resultado que oculta assimetrias profundas entre domínios como trabalho, poder e tempo. A participação económica das mulheres (cerca de 54,7 %) continua inferior à dos homens. Dados de emprego mostram que, apesar de estreitas diferenças gerais, a lacuna de emprego de género ainda ronda valores significativos, refletindo desigualdades no acesso, na estabilidade e nas condições laborais, num mercado laboral profundamente segregado.
As mulheres ganham consistentemente menos do que os homens e a diferença salarial persiste em diversos setores. A desigualdade acumula-se ao longo da vida: no escalão etário dos 65 aos 79 anos, o gender gap nas pensões rondou os 25 % em 2022, traduzindo trajetórias laborais desiguais e interrupções por cuidados não remunerados. A violência de género, que afecta quase 20% das mulheres em Portugal ao longo da vida, permanece um indicador inaceitável de desigualdade estrutural.
Estes números mostram que formalmente avançámos, mas materialmente a igualdade continua a depender de políticas públicas capazes de articular medidas económicas, sociais e culturais. A governação baseada em dados exige sistemas robustos, produzidos e monitorizados também à escala dos territórios, que permitam identificar desigualdades concretas, acompanhar tendências e avaliar impactos. Autarquias, comunidades intermunicipais, associações e entidades locais têm aqui uma responsabilidade decisiva: construir e utilizar indicadores próprios de desigualdade que sustentem decisões estratégicas informadas ,tal como previsto na ENIND 2018-2030. Só com dados sólidos e transparentes poderemos proteger as políticas públicas de igualdade de género da erosão provocada por discursos misóginos e agendas antigénero, garantindo que a ação coletiva se orienta por evidência e não por narrativas que procuram naturalizar ou invisibilizar desigualdades, com impactos significativos nas gerações mais jovens.
Rosa Monteiro, Investigadora e Professora Universitária