Financiadores, investidores, organizações filantrópicas, decisores políticos e líderes de inovação social de vários países europeus reuniram-se a 16 de outubro de 2026, no Impact Hub Lisbon – Penha de França, na European Funders & Investors Roundtable «Financing Europe’s Missions through Social Innovation». O encontro foi organizado pela Social Innovation Mission Facility (SIMF), projeto financiado pela Comissão Europeia através do Horizonte Europa.

A conclusão foi partilhada por quase todos os intervenientes: há capital disponível, mas os instrumentos, os procedimentos e as relações de financiamento ainda não estão pensados para as organizações que mais precisam dele.


Uma arquitetura de financiamento para as Missões

A sessão foi aberta por Filipe Almeida, presidente da Portugal Inovação Social, e por Carly Wickham, CEO da EdelGive/SIX. Os dois enquadraram o objetivo do encontro: perceber como pode a Europa reforçar a sua arquitetura de financiamento para a inovação social orientada por missões.

Seguiu-se Wolfgang Haider, da SI Mission Facility, que apresentou a visão do projeto. A SIMF quer mobilizar o potencial da inovação social para as Missões da UE, ultrapassando os silos entre programas de financiamento, departamentos políticos e setores.

Sven Schade, da Comissão Europeia, abordou o chamado missing middle. Trata-se da lacuna entre o financiamento público, a filantropia e o investimento comercial, onde muitas soluções promissoras não encontram capital adequado à fase em que estão. Sven Schade defendeu a necessidade de novas abordagens de financiamento, inovadoras e catalisadoras, alinhadas com as ambições políticas europeias. Raluca Painter, chefe de unidade na Direção-Geral do Emprego, dos Assuntos Sociais e da Inclusão da Comissão Europeia, apresentou a dimensão social do novo Quadro Financeiro Plurianual.


A experiência portuguesa

O painel «Insights from Portugal», moderado por Nuno Comando, da Casa do Impacto, juntou Ana Feijó Cunha, da Fundação “la Caixa”, Bernardo Gonçalves, da MyPolis, e Francesco Rocca, do Impact Hub Lisbon. Partiu de uma pergunta central: como apoiar projetos que já ultrapassaram a fase de ideia, mas ainda não estão prontos para captar investimento privado?

O painel destacou três contributos portugueses:

  • Portugal Inovação Social: o papel desta iniciativa na mobilização de municípios e investidores sociais;
  • Instrumentos de financiamento misto: as Parcerias para a Inovação Social e os Títulos de Impacto Social;
  • Organizações de apoio ao ecossistema: o trabalho de incubação, capacitação e aceleração da Casa do Impacto e do Impact Hub.

O principal desafio identificado foi a continuidade do apoio depois da incubação e do primeiro financiamento.

A MyPolis deu um exemplo de impacto mensurável: avalia que percentagem das propostas apresentadas por crianças e jovens chega a ser concretizada. O objetivo é que a participação se traduza em mudanças reais nas comunidades e nas decisões públicas.


A perspetiva dos financiadores

O painel de financiadores foi moderado por António Miguel, da MAZE. Participaram Auriane Helaine, da AVISE, Bjoern Struewer, da Roots of Impact, Carly Wickham, da EdelGive/SIX, João Machado, da Fundação Ageas, e Raffaella De Felice, do GSG Impact – Europe.

Preparação antes do capital. A preparação das organizações para receber investimento (readiness) foi um dos temas centrais. Foram referidos os Impact Readiness Levels, um modelo inspirado nos níveis de maturidade tecnológica (TRL), como referência para medir esse grau de preparação.

A experiência britânica. Do Reino Unido chegou o testemunho de uma entidade financiadora que, antes de definir a sua estratégia, passou três meses a ouvir empreendedores negros e empresas sociais em várias cidades. A conclusão foi que apenas três ou quatro regiões estavam preparadas para aplicar fundos e que é preciso reforçar o apoio de pré-preparação.

Um programa para gestores de fundos. A mesma entidade criou um programa para gestores de fundos liderados por pessoas de minorias étnicas, porque o dinheiro existe, mas o acesso aos espaços de decisão não. Nos projetos-piloto, três gestores conseguiram, em conjunto, 22 milhões de libras de investimento. O programa apoiou-os com subvenções reembolsáveis de 50 000 libras, que alimentam um fundo perene.

Os financiadores também têm de mudar. Uma fundação portuguesa contou que, desde outubro de 2021, convida todos os meses empreendedores sociais para conversar com a equipa. A partir dessas conversas, reviu os seus instrumentos e criou modelos próprios de partilha de receitas e de empréstimos convertíveis. Segundo esta fundação, cerca de 80% das mudanças necessárias são uma questão de mentalidade e de passar à ação, e não de alterar estatutos ou o enquadramento jurídico.

Uma questão para toda a sociedade. Foi também sublinhado que o capital que investe com e para o impacto continua a ser insuficiente. Por isso, a mudança sistémica não pode ser apenas uma questão de investimento: exige o envolvimento conjunto de decisores políticos, investidores e financiadores de subvenções.


Prioridades para o futuro

As reflexões finais, sintetizadas por António Miguel, apontaram duas prioridades: capacitar quem financia e construir relações de financiamento assentes na confiança e no impacto. Como exemplo, foi referido um grupo de trabalho em Portugal que reúne cerca de 20 fundações, sociedades de advogados e universidades para partilhar conhecimento sobre investimento de impacto e o respetivo enquadramento jurídico.

Do lado dos empreendedores sociais, ficaram quatro pedidos concretos:

  • financiar a estrutura e a continuidade das organizações, e não apenas novos projetos;
  • disponibilizar financiamento antecipado;
  • simplificar os procedimentos e o reporte financeiro;
  • exigir resultados de impacto ambiciosos, medidos através de indicadores relevantes.

A mensagem final foi clara. O tempo dedicado às exigências administrativas deve ser proporcional à sua utilidade, para que as equipas possam concentrar mais recursos na intervenção no terreno. Carly Wickham encerrou a sessão com a apresentação dos próximos passos e das oportunidades de envolvimento na rede.

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