A Animar – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local elaborou um contributo institucional no âmbito da consulta pública da Portaria que aprova o Regulamento da Rede Portuguesa Saber Fazer, procurando integrar a experiência acumulada da Associação e os contributos recolhidos junto da sua Rede.

A criação da Rede Portuguesa Saber Fazer constitui uma oportunidade relevante para reforçar a salvaguarda, transmissão, valorização e desenvolvimento sustentável das artes e ofícios tradicionais, reconhecendo estes saberes não apenas enquanto património cultural, mas também enquanto recursos fundamentais para o desenvolvimento dos territórios, para a economia local, para a criação de emprego e para a valorização das identidades e recursos endógenos.

Partindo dos princípios que orientam a intervenção da Animar — proximidade, participação, cooperação, valorização dos recursos locais e construção das políticas a partir dos territórios — o contributo apresentado identifica um conjunto de propostas destinadas a reforçar a dimensão territorial e participativa da futura Rede.

Entre as principais recomendações destacam-se o reforço da participação dos atores locais na governação da Rede, a criação de mecanismos regulares de auscultação dos seus membros, o reconhecimento explícito das organizações da economia social e de desenvolvimento local, a valorização dos mestres e detentores de saberes tradicionais e a simplificação dos processos de adesão.

A Animar defende igualmente uma maior territorialização da Rede, através da promoção de parcerias e mecanismos de cooperação local e sub-regional, capazes de articular artesãos, associações, cooperativas, municípios, escolas, centros de formação, museus, organizações de desenvolvimento local e comunidades.

 

  • Valorizar quem mantém vivos os saberes

Uma das preocupações centrais do contributo prende-se com a necessidade de reconhecer e valorizar as pessoas que preservam e transmitem estes conhecimentos.

Em muitos territórios, alguns dos saberes mais ameaçados encontram-se junto de mestres, antigos profissionais ou pessoas mais velhas que já não exercem uma atividade económica regular. A Animar considera, por isso, fundamental que a Rede possa reconhecer estes portadores e detentores de saberes tradicionais, promovendo condições para a sua transmissão às novas gerações.

Ao mesmo tempo, a valorização da tradição deverá ser conciliada com a inovação e a recriação contemporânea, permitindo que técnicas, materiais e conhecimentos tradicionais possam encontrar novas utilizações e contribuir para a sustentabilidade económica das atividades.

 

  • Matérias-primas, sustentabilidade e cadeias locais

Os contributos recolhidos no processo de auscultação da Rede reforçaram também a importância de olhar para as cadeias locais de matérias-primas, para a capacidade de transformação existente nos territórios e para a articulação entre produtores, artesãos e organizações locais.

A valorização de matérias-primas endógenas, a promoção da economia circular e a criação de soluções partilhadas de transformação e utilização de recursos poderão contribuir simultaneamente para a preservação dos saberes tradicionais, para a redução do desperdício e para a criação de novas oportunidades económicas nos territórios.

A sustentabilidade ambiental das práticas deverá igualmente assumir uma dimensão relevante, promovendo processos de capacitação e sensibilização relacionados com a proteção do solo, da água, da biodiversidade e dos recursos naturais associados às diferentes artes e ofícios.

 

  • Uma experiência construída nos territórios

O posicionamento da Animar neste domínio resulta também de uma experiência acumulada de identificação, valorização e transmissão de saberes, profissões e recursos endógenos.

Entre essas experiências encontra-se o trabalho desenvolvido no âmbito da cooperação com o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) na identificação e valorização de profissões e saberes em risco de desaparecimento, bem como projetos como ASAS – Aldeias Sustentáveis e Ativas e À Descoberta do Mundo Rural, apoiados pelo Programa da Rede Rural Nacional.

O projeto À Descoberta do Mundo Rural permitiu identificar, inventariar e caracterizar práticas e experiências de desenvolvimento local em meio rural, através de trabalho de terreno realizado em 26 concelhos. Deste processo resultou, entre outros produtos, o Guia de Boas Práticas “À Descoberta do Mundo Rural”, que procurou dar visibilidade a iniciativas e protagonistas dos territórios e demonstrar a importância da valorização dos recursos endógenos, da articulação entre tradição e inovação e da participação das comunidades na construção de soluções de desenvolvimento.

 

  • Construir a Rede a partir dos territórios

Para a Animar, a consolidação da Rede Portuguesa Saber Fazer deverá assentar numa articulação equilibrada entre uma estratégia nacional e a capacidade de iniciativa existente nos diferentes territórios.

Uma Rede verdadeiramente sustentável deverá ser capaz de envolver os próprios artesãos, comunidades, organizações da economia social, associações, cooperativas e organizações de desenvolvimento local na sua construção, implementação e avaliação.

A valorização do Saber Fazer passa, assim, pela preservação dos conhecimentos existentes, mas também pela criação de condições para a sua transmissão, adaptação, inovação e continuidade, reforçando o papel das comunidades enquanto protagonistas dos processos de desenvolvimento local.

 

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