No dia 29 de setembro, após ter sido distinguida com o Prémio Gulbenkian para a Humanidade 2026, que completou a sua sétima edição, a Alianza Ceibo, organização composta pelos seguintes povos indígenas da Amazónia: A’i Kofan, Siekopai, Siona e Waorani, protagonizou uma conferência que, mais que congratular a sua conquista, quis debruçar-se sobre a interseção entre a cultura, a educação, a espiritualidade e a ancestralidade, aliadas a práticas de proteção e conexão com o território.

No primeiro painel, sob o mote Who decides the future of Amazon? Territory, self-administration, climate justice, a organização reclamou a posse hereditária da Amazónia, a que está sujeita uma lógica de valorização da ancestralidade e do imaterial, do envolvimento comunitário e da conexão orgânica com a natureza. Wilson Quieta e Nemonte Nequimo, membros da organização, demonstraram-no quando traçam um paralelismo com as sociedades ocidentais industrializadas, dizendo-nos que “muitos vivem em quatro paredes e caminham sobre o concreto”, e afirmando que o crude “é sangue dos nossos antepassados que sustentam a nossa vida”. Para eles, os recursos minerais e energéticos, objeto de riqueza das indústrias extrativas e do poder político, embora conhecidos, são conceitos ocos, uma vez que a Mãe-Natureza providencia os bens necessários para colmatar as suas necessidades.

Munindo-se do apoio da Amazon Frontlines, a aliança tem atuado dentro dos limites do enquadramento jurídico para a conservação da Amazónia. Mitch Anderson, seu representante, sublinhou a aprendizagem que extraiu desta colaboração, reconhecendo o impacto nocivo do estilo de vida Ocidental sobre a Amazónia e a necessidade de resgatar o conhecimento holístico que estas práticas carregam: independentes de intermediários e essenciais à sobrevivência. Juntas, empregam 85 profissionais dedicados a desconstruir as suas ideias pré-concebidas e a aprender as práticas locais. Esta sinergia e sentido de missão permitiu, inclusive, reconstruir um modelo educativo que respeitasse a cosmovisão indígena, o qual será agora adotado e expandido pelo governo do Equador para outras comunidades.

No segundo painel, Financing Local Solution: challenges and opportunities, Hernan Payaguage aponta à necessidade de união dos povos indígenas, à paz, à educação, à autossustentabilidade, ao crescimento económico, à prevenção e mapeamento do território como eixos fulcrais para a capacidade de autogoverno. E destaca a dificuldade de aceder a financiamento para a concretização deste ideal. Por isso, defende que o modelo de financiamento seja alterado, reconhecendo as limitações das organizações em trabalhar sob o seu desenho. É neste aspeto que Hernan valoriza a filantropia, que deve ir além da caridade.

Carlos Lopes, professor na Universidade da Cidade do Cabo, explicou que o financiamento é bloqueado pela persistência da mentalidade logframe. Esta tem quatro limitações: timeline, agência, fragmentação e exclusão das pessoas do ecossistema. Em suma, em cada projeto, não é dado tempo suficiente aos atores certos nem é trabalhada uma abordagem multidimensional. A situação agrava-se quando as verbas do orçamento aprovado se diluem nos diversos intermediários antes de chegarem à base.

No fim, fica a certeza de que o trabalho da Alianza Ceibo não findou. Antes, sai reforçado pelo prémio, prometendo continuar a seguir a lógica que a pautou até aqui: a governação e desenvolvimento dos territórios ocorre numa lógica bottom-up e de co-decisão, onde de cada comunidade emerge o seu projeto de sociedade, e não numa lógica top-down. A Animar parabeniza a Alianza Ceibo pelo prémio, subscrevendo a premissa de que o desenvolvimento local se constrói a partir das comunidades locais.

 

 

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