A Animar – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local celebrou no dia 17 de setembro de 2025 o seu aniversário, assinalando em simultâneo mais uma edição do Dia do Desenvolvimento Local.

Para marcar a data, realizou-se o Encontro “Políticas e Práticas de Desenvolvimento Local”, no Auditório dos Serviços Centrais do IEFP, em Xabregas (Lisboa), entre as 9h30 e as 17h00. O encontro reuniu organizações da sociedade civil, entidades públicas, investigadores, técnicos e decisores políticos, num espaço de debate, reflexão e partilha sobre os desafios que hoje se colocam às comunidades locais e ao futuro das políticas públicas em Portugal, tendo contado com mais de uma centena de pessoas.

Na sessão de abertura, o presidente do IEFP, I.P., Domingos Lopes, deu as boas-vindas aos participantes e sublinhou o papel determinante do Instituto enquanto parceiro das políticas de desenvolvimento local, tendo sublinhado que “O IEFP é uma entidade descentralizada com forte presença nos territórios, através dos Centros de Emprego e Formação Profissional. Temos a responsabilidade de coordenar políticas a nível nacional, mas também a sensibilidade de as adaptar às especificidades de cada região.”

Na sua intervenção, a presidente da Animar, Célia Pereira, destacou a relevância do momento, lembrando que a associação está presente em 150 concelhos, com impacto em todo o território nacional, tendo destacado que “O desenvolvimento local é uma forma estruturante para a coesão social e territorial. É também um fator de sustentabilidade: por cada euro investido, o impacto chega a quatro euros na economia local. Representamos 3,2% do PIB e empregamos mais de 5% da população.”

A presidente da Animar reforçou ainda que a Animar continuará a ser voz ativa na política pública, apresentando propostas concretas, como fez recentemente com a elaboração e divulgação da Carta de Propostas para as Autárquicas, defendendo uma articulação efetiva entre Estado, sociedade civil e setor privado. Apelou também a uma aposta renovada na economia social e comunitária, no combate à precariedade, na democracia participativa e em novos modelos de gestão e transparência.

“O desenvolvimento local não é apenas uma metodologia: é uma visão de futuro. É inovação social, participação cidadã, empoderamento das comunidades. É aproximar o Estado das pessoas e antecipar respostas para os desafios sociais, económicos e ambientais que enfrentamos” destacou Célia Pereira.

Seguiu-se a intervenção de Raul Lopes, professor, investigador e coordenador do Barómetro do Desenvolvimento Local, que apresentou uma visão histórica e prospetiva. Relembrou as várias fases de investimento público nas últimas décadas — desde infraestruturas básicas até políticas sociais e culturais — mas advertiu que é preciso “repensar a política de desenvolvimento local atual”. Segundo o investigador, “persistem défices de participação cívica, ausência de sinergias entre os diferentes atores e políticas demasiadas vezes cativas das agendas europeias em vez das necessidades das comunidades. Se queremos um desenvolvimento sustentável, precisamos de políticas place-based, enraizadas nos territórios e na voz das populações.”

Entre os principais desafios identificados, o professor Raul Lopes destacou a necessidade de responder ao acesso à habitação, ao acolhimento e integração de migrantes, a integração social, o apoio à terceira idade e a criação de um desenvolvimento económico local mais competitivo, capaz de gerar emprego e travar fenómenos de exclusão e populismo, alertando para a necessidade de repensar as políticas públicas, de forma a combater a falta de participação cívica e a ausência de sinergias entre os diferentes atores locais.

De seguida prosseguiu-se para o debate sobre “Políticas com propósito”, que reuniu personalidades como Pedro Adão e Silva, José Manuel Ribeiro e Cláudia Joaquim, que partilharam perspetivas sobre descentralização, regionalização e eficácia das políticas públicas.

Segundo Pedro Adão e Silva, “as políticas públicas só são eficazes quando compatibilizam escolhas políticas com planeamento e avaliação de longo prazo, algo mais exequível a nível local e regional do que a nível nacional”.

Já José Manuel Ribeiro sublinhou que “Portugal deve recuperar riqueza com justiça, através da educação, da cultura e do empreendedorismo, articulando melhor as estruturas regionais para criar impactos reais nas comunidades”.

Cláudia Joaquim, por sua vez, reforçou a necessidade de melhorar a governação multinível e de promover a apropriação das estratégias pelas comunidades, tendo destacado ainda que “As políticas não podem ser apenas medidas perfeitas no papel. É preciso que sejam operacionalizáveis, que aconteçam e que as pessoas se sintam parte delas.”

O encerramento ficou marcado pelas Conversas Inspiradoras, moderadas por Célia Pereira, com contributos de António Brito Guterres, João Wengorovius Meneses e Rogério Roque Amaro.

António Brito Guterres evocou o Dia Mundial da Democracia e o Dia Nacional do Desenvolvimento Local, alertando para os riscos de afastamento entre políticas públicas e realidades concretas, sublinhando que “A democracia está em crise porque muitas vezes não ouvimos quem vive nos territórios. As comunidades têm soluções, mas raramente são chamadas para a discussão. O desenvolvimento local tem de ser construído a partir das pessoas reais.”

Por sua vez, João Meneses reforçou a centralidade da Agenda 2030, alertando para os perigos dos populismos globais, pela disseminação de discursos de ódio e pela dificuldade crescente em distinguir a verdade da desinformação e da quebra de confiança nas instituições, destacando que “Precisamos de uma política que tenha as pessoas no centro e que se construa de baixo para cima. A delicadeza, a empatia e a participação são fundamentais para restaurar a confiança e enfrentar os desafios sociais e ambientais.”

Por fim, Rogério Roque Amaro recuperou a memória histórica do desenvolvimento comunitário em Portugal, sublinhando a diferença entre “desenvolvimento local” e “desenvolvimento do local”, a sua importância para a democracia e a coesão social, reforçando que “O desenvolvimento comunitário nasce das necessidades sentidas pela população e só é verdadeiro se envolver as comunidades no processo de decisão. Hoje, assistimos ao regresso das comunidades como protagonistas. É no seu protagonismo que encontramos a força transformadora dos territórios.”

Para Roque Amaro, esta dimensão comunitária continua central: “A Animar nasce precisamente deste movimento, da mobilização da sociedade civil e da ação coletiva nos territórios, num processo em que as comunidades não são apenas beneficiárias, mas protagonistas do seu próprio desenvolvimento.”

Ao longo de um dia intenso de partilha, ficou claro que o desenvolvimento local é mais do que uma estratégia técnica: é uma visão de futuro para o país, que valoriza a proximidade, a participação e a sustentabilidade.

A celebração reafirmou o compromisso da Animar em mobilizar a sociedade civil, promover políticas públicas mais próximas das pessoas e assegurar que o desenvolvimento local ocupa lugar central na agenda nacional e europeia.