UM IVANOV - ensaio sobre a mentira

05/05/2021 |
UM  IVANOV - ensaio sobre a mentira

A Barraca reabre dia 7 deMaio com a peça UM  IVANOV - ensaio sobre a mentira, de Anton Tchekov, com dramaturgia e encenação de Maria do Céu Guerra

A estreia a 7 de Maio (às 19h30) e estará em cena até dia 13 de Junho

MAIO
Terça-feira – dia 11, 18, 25 - ÀS 19H30
Sexta-feira – dias 7, 14, 21, 28 - ÀS 19H30
Sábado – dias 8, 15, 22 - ÀS 17H00 - e dia 29 - ÀS 19H30
Domingo – dia 30 - ÀS 17H00

JUNHO
Sexta-feira – dias 4 e 11 - ÀS 19H30
Sábado – dias 5 e 12 - ÀS 19H30
Domingo – dias 6 e 13 - ÀS 17H00

A sala passou a ter lugar apenas para 80 pessoas, pelo que é necessária a marcação prévia.

Informações e reservas:
Tel. 968 792 495 • 913 341 683
Email. bilheteira@abarraca.pt

Bilhete normal: 15,00 €
Estudantes, Profissionais de Teatro, menores de 25 e Maiores de 65 anos: 10,00 €

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Falamos a sério?

A 15 de Marco de 2020 encerrámos as portas do Teatro Cinearte ao público e aos companheiros da Barraca, que até Maio se mantiveram confinados, suspendendo os espectáculos em cena: “A Torre de Babel”; as pecas integrantes do nosso serviço educativo - “1936 - O Ano da Morte de Ricardo Reis” e “A Farsa de Inês Pereira”; os ensaios de “Ivanov” e a preparação da dramaturgia de “O Elogio da Loucura”.

Durante o período da quarentena, naquela solidão aterradora, fui tendo sentimentos misturados sobre a minha querida obra de Tchekhov de que a razão parecia levar-me a desistir. Rearrumei a minha biblioteca e fui pensando. Reencontrei obras sobre as pestes, reli Camus, Artaud, Jack London, Poe.

A situação tendia para substituir o que tínhamos em mãos e pensar tudo outra vez. Mas uma reflexão mais calma levou-me às razões pelas quais eu queria tanto fazer esta peca.

Afinal a pandemia só era tão assustadora porque o estado do mundo já era assustador: a pobreza, o abandono dos fracos, o aquecimento global, a saúde, o ensino, a cultura a esbracejarem de incompreensão, nos países ricos e pobres, e o mundo a calar-se ou a mentir. Milhões de pessoas a morrerem de fome e outros milhares de milhões a serem gastos por muito poucos a inventar uma rota de fuga para um novo planeta sem riscos... Mentiras. Factos alternativos. Mentiras.

Então voltei aos temas da minha peca: a revelação da mentira e da calúnia assassina como crime e a condenação do mundo que exige uma impossível coragem aos pobres, aos doentes, aos velhos, aos deprimidos. A mentira que mata e a obrigação de resistência a quem não tem onde ir buscá-la.

E reavaliei aquela opinião que gritava de dentro das televisões “é preciso fazer tudo a partir da nova situação da pandemia” e repensei “é preciso fazer tudo a partir da valorização do ser humano”. É isso, o mundo tem de ser revisto pelos olhos agudos de Tchekhov, é preciso verdade, tolerância, generosidade e justiça.

E uma espada desembainhada contra a mentira e a demagogia.

Maria do Céu Guerra