Organizações Não Lucrativas: Aprendizagem Organizacional, Orientação de Mercado, Planeamento Estratégico e Desempenho

Organizações Não Lucrativas: Aprendizagem Organizacional, Orientação de Mercado, Planeamento Estratégico e Desempenho, Carvalho. João M. S. (2005), Lisboa, Edições Sílabo, 156 pp.

Este é um dos poucos livros publicados em Portugal, tanto quanto sabemos, que aborda especificamente a gestão das organizações sem fins lucrativos. E fá-lo tocando num conjunto vasto de aspectos sensíveis, como o mercado e o sector não lucrativo, o marketing, o pla­neamento estratégico, a análise do de­sempenho e a aprendizagem organiza­cional. O autor é licenciado em Gestão de Empresas, mestre em Economia e dou­tor em Ciências Empresariais pela Faculdade de Economia da Universi­dade do Porto e exerce docência no Ins­tituto de Serviço Social do Porto.

Como ele afirma na introdução, a moti­vação para escrever o livro teve a ver com a constatação de que os gestores des­tas organizações sentem dificulda­des na “implementação de uma verda­deira orientação estratégica de gestão, que proporcione e potencie o sucesso e per­mita conseguir uma maior sustenta­bilidade organizacional”. Nessa medida, realizou investigação sobre este tipo de organizações em Portugal, entre 2002 e 2004, a qual conduziu à realização do seu doutoramento.

O livro centra-se em particular na mul­tiplicidade de organizações de acção so­cial, envolvidas no apoio a cidadãos em situações de vulnerabilidade ou de exclusão social, na execução de políticas de rendimento de inserção, de projectos de formação profissional, na defesa dos direitos sociais e entre muitas outras áre­as. O autor considera que os gesto­res destas organizações estão perante um conjunto de questões fundamentais que resume em quatro grandes proposi­ções: do paradoxo ao paradigma, ou seja, da rejeição do marketing à sua uti­lização generalizada como instrumento de gestão; do utente ao cliente, isto é, a caminho de uma nova visão dos desti­na­tários das diferentes actividades do sec­tor social; da competição à coope­ração, ou seja, de uma perspectiva me­ra­mente competitiva para outra que abra­­ça a cooperação no quadro das or­ganiza­ções; e da mudança de comportamento à mudança social, isto é, de uma lógica relativamente estreita a outra que considera objectivos ambiciosos de de­senvolvimento humano harmonioso.

O livro estrutura-se em sete capítulos, que aqui resumimos pelas próprias pa­lavras de introdução do autor:
1. O Mercado e o Sector Não Lucrativo – enquadra e define os conceitos de mer­cado e de organizações sem fins lu­crativos e responde também à ques­tão: por que razão se fala de mercados na economia social?
2. A Importância do Marketing – enqua­dra e define conceitos de marketing, como ciência, e de gestão de marke­ting, mostrando a importância no ter­ceiro sector;
3. As Orientações Estratégicas – desen­volvem-se os conceitos de diferentes orientações estratégicas na gestão de mercados, dando maior relevo à orien­tação de mercado e ao seu papel no ter­­ceiro sector;
4. A Aprendizagem Organizacional – en­quadra teoricamente o conceito de aprendizagem organizacional e apre­senta as questões que podem ajudar à sua implementação;
5. O Planeamento Estratégico – enqua­dra teoricamente o conceito de plane­amento estratégico e apresenta as ques­tões que ajudam à sua imple­mentação;
6. Como Medir o Desempenho – desen­volve as questões sobre a medição do desempenho organizacional, apontando alguns indicadores relevantes
;7. Como implementar a Orientação de Mercado – apresenta as questões fun­damentais para que se possa diagnos­ticar e implementar uma orientação de mercado.

A abordagem seguida pode ser caracte­rizada por uma preocupação de articular teoria e prática e de estimular o uso do livro como um instrumento de refle­xão e acção. Assim, cada capítulo come­ça com a definição clara dos seus objec­tivos, para que o leitor saiba as matérias que estão em jogo e conheça aquilo que poderá aprender com a sua leitura. Por outro lado, quase todos os capítulos fa­zem referência ao caso das organizações não lucrativas em Portugal, dando a co­nhecer os resultados da pesquisa do autor.

Tomemos o exemplo do capítulo 4, sobre aprendizagem organizacional. Os seus objectivos são seis: (1) compreen­der o con­ceito de  aprendizagem organizacional; (2) reflectir sobre as relações deste conceito com o de orientação de merca­do (dimensão que percorre todos os capí­tulos); (3) definir a aprendizagem orga­nizacional de forma neutra e autónoma das orientações de gestão; (4) apresen­tar os resultado da avaliação da apren­dizagem organizacional nas organiza­ções não lucrativas em Portugal; (5) responder a questões-diagnóstico sobre aprendizagem organizacional; e (6) apre­sentar propostas de gestão do processo de implementação de uma organização com capacidade de aprender.

São simultaneamente sintomáticas e desafiantes as conclusões apresentadas sobre o resultado da avaliação da apren­dizagem organizacional nas orga­nizações não lucrativas em Portugal. Na verdade, tendo em conta que a aprendi­zagem organizacional  habilita as orga­nizações para a criação, aquisição e trans­ferências de conhecimentos, as­sim como para a mudança e o alargamento de horizontes, é muito modesto o desempenho das organizações estu­dadas.

O autor constatou que estas organiza­ções utilizam muito pouco a consultoria externa e não dão a devida importância à formação do pessoal (p. 70). Por ou­tro lado, como também sublinha, “as ques­tões sobre o pensamento crítico são mais pontuadas quando são vistas de forma individual e muito menos quando se põe a hipótese de exercício conjunto” e os dirigentes dão pouca liberdade aos trabalhadores das organizações para interferirem na gestão (p. 71). Ou seja, pre­domina uma “visão de menor empe­nhamento colectivo e de trabalho de equipa na determinação da orientação organizacional” (p. 71). Mas  outros as­pectos são também destacados, como a recompensa da inovação e o bench­marking estarem algo afastados dos há­bitos de gestão, e a frágil  incorporação das mudanças ambientais e tecnológi­cas nas actividades, reveladora, segun­do o autor, “do ambiente de isolamento re­lativo em que são geridas as organiza­ções” (p. 71).

A orientação prática ou instrumental do livro está também expressa na sua par­te final, num apêndice em que se apresenta um guião de auditoria, cons­truído a partir do referencial teórico ex­posto, que pode ser usado para perce­ber o perfil de uma dada organização. A análise dos resultados permite saber se uma organização está numa posição má, razoável ou boa em cada um dos qua­tro aspectos centrais considerados (aprendizagem organizacional, orienta­ção de mercado, planeamento estraté­gico e eficácia de desempenho) e esti­mu­lar a definição de medidas  que per­mi­­tam construir o seu sucesso e a sustentabilidade.

Como seria de esperar, o livro termina com uma extensa lista de referências bi­bliográficas, predominantemente de origem anglo-saxónica.Em síntese, é uma leitura que se reco­menda, pois será seguramente interpe­ladora e, muito provavelmente, estimu­ladora da inovação nas organizações não lucrativas em geral.

Artur Cristóvão
Professor do Departamento de Economia, Sociologia e Gestão da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Última actualização
Sábado, 30 de Abril de 2011
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